Pular para o conteúdo principal

Manifesto filosófico

1. Contra o nada, afirmo o ser.

Rejeito toda forma de niilismo, antigo ou moderno, explícito ou disfarçado. O nada não pode ser origem, nem destino, nem horizonte do pensamento. O ser é. E é nele que a inteligência repousa e desperta.


2. A inteligência é feita para o ser.

A razão não é artifício nem cárcere. É abertura para o real, participação na luz do ser. Como ensinou Tomás de Aquino, a verdade é a conformidade da inteligência ao ser, e não meramente uma construção ou convenção.


3. O finito não basta a si mesmo.

Cada ente finito proclama, pela sua limitação, um apelo ao ilimitado. A mutabilidade exige a permanência. A contingência clama pela necessidade. O devir não é absoluto: é sinal de um Ato puro, de um ser plenamente atual, que tudo sustenta sem se perder no movimento.


4. O fundamento último não pode ser composto, mutável ou dividido.

Por isso recuso a absolutização da história, da linguagem ou da subjetividade. Reconheço nelas o valor que possuem, mas apenas como participações do Ser, jamais como seus fundamentos.


5. A tradição é uma janela, não uma prisão.

Assumo o legado do pensamento tomista como caminho de lucidez metafísica, mas também acolho as perguntas da modernidade e do pensamento contemporâneo – não para diluir a verdade, mas para purificá-la e aprofundá-la.


6. A participação é a chave da criatura.

Tudo o que é finito, é por participação. Nada de finito possui o ser por si. A criatura não é um fragmento do Criador, mas também não é um absoluto paralelo. Ela vive do ser como a chama vive do fogo.


7. O mistério não anula a razão.

Creio na unidade entre fé e razão. Onde a razão se cala, a fé pode falar; mas não contra a razão, e sim além dela. O mistério é excesso, não contradição. Ele exige reverência, não renúncia à inteligência.


8. Filosofar é resistir ao desespero.

Diante do sofrimento, da dúvida, da morte e da fragmentação, o pensamento não se cala. Filosofar é buscar sentido, é reabrir a pergunta, é não aceitar que o absurdo seja a última palavra.


9. A teologia não é evasão, mas transfiguração do real.

O Verbo se fez carne. O eterno tocou o tempo. Por isso, pensar a Deus é também pensar o homem, o mundo, a história — não como peso, mas como sacramento da eternidade.


10. Todo pensamento verdadeiro é uma forma de oração.

Quando a inteligência se eleva até o Ser, quando reconhece sua dependência e sua vocação, ela se faz humilde, grata, aberta. E nesse momento, já não apenas pensa: ela adora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maritain e a intuição do ser

  Jacques Maritain desenvolve uma teoria peculiar sobre o conhecimento do ser, defendendo a existência de uma intuição do ser que ocorre em um nível superior de abstração. Sua posição é influenciada pelo tomismo, mas também incorpora elementos de sua própria filosofia do conhecimento. ⸻ 1. A Estrutura do Conhecimento do Ser segundo Maritain Maritain distingue três níveis na apreensão do ser: 1. O Primeiro Nível: Conhecimento Sensorial e Abstrato • Inicialmente, apreendemos o ser indiretamente, por meio das coisas concretas. • O intelecto forma o conceito de ens (ser), abstraído das realidades individuais. • Esse conceito, contudo, ainda é limitado, pois depende das representações sensíveis. 2. O Segundo Nível: Julgamento Existencial • O intelecto formula juízos existenciais como “isto é” ou “as coisas são”. • Nesse nível, há uma percepção do ser como algo que realmente existe fora da mente. • O conceito de existência emerge desse juízo, mas ainda per...

Sciacca, defensor da “interioridade objetiva”

SCIACCA, Michele Federico. L’interiorità oggettiva. A cura di Nunzio Incardona. Palermo: L’Epos, 1989. ——- Michele Federico Sciacca, filósofo italiano do século XX, elabora nesta obra uma profunda reflexão sobre a estrutura da subjetividade humana e sua abertura à verdade e ao ser, sob a perspectiva do pensamento cristão e metafísico. Ele se propõe a superar os limites tanto do racionalismo moderno quanto do ceticismo contemporâneo, propondo uma concepção de “interioridade objetiva”. ⸻ Estrutura e ideias principais 1. Introdução e crítica à modernidade filosófica Sciacca analisa o percurso da filosofia moderna: de Descartes a Hegel, passando por Kant, a razão se absolutiza e perde sua abertura ao transcendente. A verdade passa a ser vista como produto do sujeito, culminando na dissolução da metafísica na lógica. Ele também critica as correntes contemporâneas — relativismo, existencialismo problemático, historicismo — que negam a possibilidade da verdade. Contra isso, Sciacca afirma qu...

Definição clássica da filosofia

A filosofia, entendida como “ciência de todas as coisas por suas causas últimas adquirida à luz da razão”, é uma definição clássica que remonta à tradição aristotélico-tomista. Essa concepção destaca três aspectos essenciais: 1. Ciência – A filosofia busca conhecimento sistemático e organizado, fundado na racionalidade e na evidência, distinguindo-se da mera opinião ou crença infundada. 2. De todas as coisas – Enquanto as ciências particulares estudam aspectos específicos da realidade (como a física, que trata do movimento, ou a biologia, que analisa os seres vivos), a filosofia tem um caráter universal. Ela investiga a totalidade do ser enquanto ser, abrangendo tanto o mundo material quanto o imaterial. 3. Por suas causas últimas – Diferente das ciências empíricas, que se detêm nas causas próximas e experimentais, a filosofia se aprofunda nas causas mais fundamentais da realidade, como a existência, a essência e a finalidade das coisas. Isso inclui questões metafísicas sobre Deus, a...