Introdução
A metafísica, enquanto saber sobre o ser em sua totalidade, encontra em tempos modernos diversos desafios, principalmente a partir da crítica ao conhecimento e do ceticismo em relação aos fundamentos. Contra esse pano de fundo, Gustavo Bontadini (1903–1990) propôs uma renovação rigorosa da metafísica clássica — notadamente inspirada em Tomás de Aquino — mediante a reafirmação do fundamento absoluto do ser. Sua proposta não se limita a uma repetição do tomismo tradicional, mas consiste numa reformulação crítica e dedutiva da exigência de um ser necessário, a partir da experiência do devir e do princípio de não contradição.
O ponto de partida: o devir como contradição
Bontadini parte da constatação de que a filosofia só se torna necessária quando se depara com a contradição. O devir — isto é, a mudança, o surgimento e desaparecimento dos entes — se apresenta como uma figura exemplar dessa contradição: o “não-ser do ser”. Para Bontadini, o devir contém em si uma tensão lógica que o pensamento não pode simplesmente ignorar. Se algo é e deixa de ser, então nele se manifesta uma contradição: como o ser pode não ser?
Essa observação conduz à afirmação de que o princípio de não contradição não é apenas um axioma lógico abstrato, mas o fundamento último da metafísica, que se torna evidente exatamente quando o pensamento encontra o limite do devir.
O princípio de criação como solução da contradição
A experiência do devir só pode ser pensada sem contradição, afirma Bontadini, se o devir for criado. Com isso, o filósofo introduz o que chama de “teorema supremo da metafísica”: o princípio de criação. A criação se torna, portanto, a única maneira de afirmar coerentemente a existência de seres contingentes — ou seja, de entes que não têm em si a razão de seu ser.
O mundo contingente, mutável, só pode existir se fundado por um ser que não seja contingente, não mutável — um ser necessário. Tal ser não é outro senão Deus, compreendido como fundamento absoluto do ser. A metafísica, neste ponto, alcança seu objetivo: mostrar racionalmente que o contingente exige um fundamento transcendente.
A prova a partir da contingência
A proposta de Bontadini se articula como uma via a posteriori, que parte da experiência da contingência do mundo. Essa contingência manifesta a impossibilidade de o ente finito ser a causa de si mesmo. A razão, ao buscar a explicação do ente, se vê levada, pela lógica da insuficiência ontológica, a postular um ser absolutamente necessário. O raciocínio se estrutura segundo o princípio de razão suficiente: o finito é porque participa de algo que é por si.
Assim, a contingência se converte em sinal da necessidade de um fundamento ontológico não derivado, cujo ser não dependa de outro — em termos clássicos, um ser que é sua própria essência e existência: Esse per se subsistens.
Críticas e resposta de Bontadini
Essa demonstração não passou sem críticas. Ignazio Bonetti, por exemplo, acusou Bontadini de forçar uma contradição entre ser e devir, e de introduzir uma visão demasiadamente rígida da distinção entre o mutável e o imutável. Para Bonetti, é possível pensar o ser de modo que o devir não implique contradição, desde que se aceite uma distinção conceitual mais flexível entre esse e ens.
Bontadini, no entanto, reafirma que sua abordagem não é apenas lógica, mas metafísica: trata-se de mostrar que a estrutura da realidade, tal como se apresenta à razão, exige um ser imutável, sob pena de incorrer em contradição. Não é uma questão de preferência conceitual, mas de coerência racional.
Desdobramentos: a metafísica como ciência rigorosa
O projeto de Bontadini culmina numa visão da metafísica como ciência rigorosa, que não pode ser reduzida à gnoseologia nem às ciências particulares. Ela tem um método próprio, fundado sobre a estrutura da razão e sua abertura ao ser. Contra o ceticismo moderno, o filósofo italiano insiste que é possível, e necessário, pensar o ser com base na razão, pois a razão encontra no ser seu objeto natural.
Essa proposta influenciou profundamente a tradição filosófica da Università Cattolica del Sacro Cuore, bem como pensadores posteriores como Italo Mancini, que desenvolveram o “implesso originário” entre experiência, princípio e transcendência como núcleo da filosofia.
Conclusão
A rigorização do problema do fundamento realizada por Bontadini representa uma das tentativas mais sistemáticas, no século XX, de renovar a metafísica a partir de uma lógica do ser e da exigência de fundamento. Sua força reside na convicção de que a realidade é racional, e que essa racionalidade exige um fundamento que não pode ser negado sem autocontradição. Ao reafirmar a validade da via metafísica como conhecimento necessário do ser, Bontadini recoloca a filosofia no centro da tarefa de compreender o mundo, o homem e Deus — numa chave ontológica e não apenas crítica.

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