Pular para o conteúdo principal

Para além do conhecimento finito

 A cultura do mundo ocidental, na Modernidade (século XVII-XX), foi fundamentalmente marcada pelo conhecimento científico-empiriológico, cuja grande expressão é a física. Avanços extraordinários foram feitos. Chegou-se a pensar que tal forma de conhecimento fosse o único seguro e objetivo, capaz de garantir ao homem o acesso à verdade total. 

No entanto, já a partir do século XIX, a crítica ao cientificismo (absolutização do conhecimento científico-empiriológico) se fez ouvir. O Romantismo e o Idealismo postularam um saber acima do empiriológico, acessível pela intuição (Romantismo) ou pela Razão (Vernunft), que ultrapassa o mero entendimento (Verstand) (Idealismo). Nietzsche criticou os próprios pressupostos do conhecimento racional. Karl Popper e Thomas Khun fizeram ver que as ciências não retratam necessariamente a realidade, mas oferecem hipóteses ou modelos que permitem lidar com os fenômenos até que apareçam hipóteses ou modelos melhores de acordo com as exigências do próprio mundo fenomênico. 

Assim, o conhecimento científico-empiriológico, que foi tido como o saber par excellance, é hoje em geral considerado um conhecimento eficaz, sim, mas incapaz de desvendar o último significado do real. Aqui uma pergunta surge quase que espontaneamente: diante da crise das ciências empiriológicas, haveria uma fonte de sentido para o homem, objeto de um conhecimento seguro? 

A tradição metafísica, desde Platão até metafísicos da atualidade, passando por Agostinho, Tomás de Aquino, Leibniz, Rosmini e Joseph Maréchal, tem afirmado que o mistério do Ser é, de algum modo, acessível ao homem, que, tendo a capacidade de raciocinar e de intuir intelectualmente verdades primeiras e absolutas, é dotado de um atributo verdadeiramente “divino”: o lógos. O lógos que há no homem corresponderia ao Lógos ou à Razão que há no Ser, de modo que o homem participaria, na sua finitude e historicidade, de algo infinito e eterno. Nesse sentido, o homem não seria totalmente absorvido pelo transitório, mas traria uma dimensão vinculada ao permanente e à Fonte de sentido último. 


Elílio de Faria Matos Júnior

Padre católico e professor de filosofia e teologia no Seminário Arquidiocesano Santo Antônio / Centro Universitário Academia e na Universidade São Francisco / Instituto Teológico Franciscano

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Maritain e a intuição do ser

  Jacques Maritain desenvolve uma teoria peculiar sobre o conhecimento do ser, defendendo a existência de uma intuição do ser que ocorre em um nível superior de abstração. Sua posição é influenciada pelo tomismo, mas também incorpora elementos de sua própria filosofia do conhecimento. ⸻ 1. A Estrutura do Conhecimento do Ser segundo Maritain Maritain distingue três níveis na apreensão do ser: 1. O Primeiro Nível: Conhecimento Sensorial e Abstrato • Inicialmente, apreendemos o ser indiretamente, por meio das coisas concretas. • O intelecto forma o conceito de ens (ser), abstraído das realidades individuais. • Esse conceito, contudo, ainda é limitado, pois depende das representações sensíveis. 2. O Segundo Nível: Julgamento Existencial • O intelecto formula juízos existenciais como “isto é” ou “as coisas são”. • Nesse nível, há uma percepção do ser como algo que realmente existe fora da mente. • O conceito de existência emerge desse juízo, mas ainda per...

"Espírito no mundo", de Karl Rahner

 Karl Rahner, em Geist in Welt  ( Espírito no mundo ) , propõe uma interpretação filosófica da metafísica do conhecimento em Santo Tomás de Aquino. A obra busca conciliar a tradição tomista com as inquietações filosóficas contemporâneas, especialmente as questões do conhecimento e da metafísica levantadas por Kant e Heidegger. A tese central do livro é que o intelecto humano, embora condicionado pelo mundo sensível, tem a capacidade de transcendê-lo e alcançar o conhecimento do ser. Estrutura da Obra O livro está dividido em três partes principais: 1. Interpretação Introdutória de Summa Theologica I, Q. 84, Art. 7 Rahner inicia sua análise examinando a questão 84, artigo 7 da Summa Theologica , onde Tomás discute se o intelecto pode conhecer por meio das species intelligibiles sem recorrer às imagens sensíveis ( phantasmata ). Esse artigo é crucial para entender a epistemologia tomista, pois aborda a relação entre o intelecto e a sensibilidade. Pontos principais desta s...

Deus sem o ser. Uma palavra sobre Jean-Luc Marion

Eis um resumo estruturado do livro  Dieu sans l’être , de Jean-Luc Marion. ⸻ 1. Contexto e Objetivo da Obra • Marion propõe uma crítica radical à tradição metafísica que concebe Deus sob o conceito de ser. • Influenciado por pensadores como Heidegger, Nietzsche, Levinas e Derrida, Marion busca libertar Deus da ontologia, deslocando a questão para a revelação e o amor (ágape). • A obra se insere no debate entre teologias correlacionais (que buscam integrar razão e revelação) e teologias não-correlacionais (que se fundamentam exclusivamente na revelação). ⸻ 2. Estrutura e Principais Temas A obra está organizada em oito capítulos, com uma introdução (Envoi) e uma conclusão. Os temas centrais incluem: 2.1. O Ídolo e o Ícone (Capítulos 1 e 2) • Marion distingue duas formas de relação com o divino: • Ídolo: fixa Deus no horizonte do ser e da representação, satisfazendo a visão humana, mas limitando Deus a um conceito fabricado. • Ícone: não é um objeto de visão, m...