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Deus sem o ser. Uma palavra sobre Jean-Luc Marion



Eis um resumo estruturado do livro Dieu sans l’être, de Jean-Luc Marion.


1. Contexto e Objetivo da Obra
Marion propõe uma crítica radical à tradição metafísica que concebe Deus sob o conceito de ser.
Influenciado por pensadores como Heidegger, Nietzsche, Levinas e Derrida, Marion busca libertar Deus da ontologia, deslocando a questão para a revelação e o amor (ágape).
A obra se insere no debate entre teologias correlacionais (que buscam integrar razão e revelação) e teologias não-correlacionais (que se fundamentam exclusivamente na revelação).


2. Estrutura e Principais Temas

A obra está organizada em oito capítulos, com uma introdução (Envoi) e uma conclusão. Os temas centrais incluem:

2.1. O Ídolo e o Ícone (Capítulos 1 e 2)
Marion distingue duas formas de relação com o divino:
Ídolo: fixa Deus no horizonte do ser e da representação, satisfazendo a visão humana, mas limitando Deus a um conceito fabricado.
Ícone: não é um objeto de visão, mas um meio de transfiguração da visão humana, apontando para o invisível e o infinito divino.
A idolatria filosófica ocorre quando Deus é reduzido a um conceito, como na metafísica tradicional.

2.2. A Travessia do Ser (Capítulo 3)
Critica o entrave ontológico na teologia: a tendência de definir Deus como “o Ser supremo” (ontoteologia).
Questiona se Deus deve ser pensado primeiramente como ser ou como amor.
Propõe um deslocamento: Deus transcende o ser, pois “Deus é amor” (1 João 4:8).

2.3. A Vaidade e o Amor (Capítulo 4)
Explora o conceito de vaidade (vanitas) como uma desconstrução da centralidade do ser.
A experiência do tédio e da melancolia revela a insuficiência do ser para captar Deus.
O amor surge como alternativa: Deus não é “aquele que é”, mas “aquele que ama”.

2.4. A Eucaristia como Paradigma da Teologia (Capítulo 5)
A Eucaristia é o modelo de pensamento teológico adequado: um dom absoluto, que excede o conceito.
A presença real de Cristo na Eucaristia escapa às categorias ontológicas e exige uma hermenêutica baseada no dom.

2.5. O Presente e o Dom (Capítulo 6)
Desenvolve uma fenomenologia do dom como estrutura fundamental da revelação.
O dom divino excede a reciprocidade e a economia do ser.
A revelação deve ser entendida como um “excesso” que transcende o conceito e o ser.

2.6. A Conversão do Pensamento (Capítulo 7)
O pensamento deve converter-se da ontologia para uma lógica do dom e da revelação.
O martírio é apresentado como o exemplo máximo dessa conversão: testemunho do dom radical de Deus.

2.7. Tomás de Aquino e a Ontoteologia (Capítulo 8)
Marion reavalia a relação de Tomás de Aquino com a ontoteologia.
Argumenta que, embora Tomás tenha usado o conceito de “ser” (esse), ele não prendeu Deus à ontologia metafísica.
Sugere que Tomás já apontava para um Deus que transcende o ser.


3. Conclusão e Impacto
Marion propõe uma teologia não-ontológica, centrada no amor e no dom, em vez do ser.
A obra representa um marco na teologia pós-moderna, desafiando abordagens tradicionais e influenciando debates filosófico-teológicos contemporâneos.
Deus não deve ser pensado “segundo o ser”, mas sim “segundo o amor”.


Esse resumo sintetiza os principais argumentos e estrutura do livro.

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Abaixo um resumo mais detalhado do capítulo 8, que trata de Tomás de Aquino 

Capítulo 8 – Tomás de Aquino e a Ontoteologia

No último capítulo de Dieu sans l’être, Jean-Luc Marion dedica-se a um dos temas mais controversos de sua obra: a relação entre Tomás de Aquino e a ontoteologia. Marion responde à questão central do livro: Deus deve ser pensado como “ser” (esse) ou há outra abordagem mais radical?

Esse capítulo é fundamental porque:
1. Marion revisita a tradição metafísica cristã e propõe uma leitura alternativa de Tomás.
2. Ele busca distinguir a teologia tomista da ontoteologia heideggeriana.
3. Ele argumenta que o “ser” (esse) de Deus em Tomás não é redutível ao “ser” da metafísica tradicional.


1. O Problema da Ontoteologia

A crítica da ontoteologia vem de Martin Heidegger, que argumenta que a tradição metafísica ocidental reduziu Deus ao “supremo ente” dentro da estrutura do ser. Segundo Heidegger, toda metafísica ocidental, de Aristóteles a Hegel, enquadrou Deus dentro da “economia do ser”, tornando-o um fundamento necessário do ser.

Marion, seguindo Heidegger, aceita essa crítica, mas propõe um passo adiante:
A teologia cristã deve superar qualquer “domesticação” de Deus pelo conceito de ser.
Deus deve ser pensado fora do horizonte do ser, isto é, como “excesso”, “dom”, “caridade”.
A revelação bíblica não define Deus como ens supremum (ente supremo), mas como “amor” (agape, 1Jo 4:8).

Marion então investiga se Tomás de Aquino realmente insere Deus nessa estrutura ontoteológica.


2. Tomás de Aquino e a Questão do “Esse”

A tradição tomista frequentemente é associada à afirmação de que Deus é ipsum esse subsistens (o próprio ser subsistente). Para muitos, isso implicaria que Tomás de Aquino fez exatamente o que Heidegger critica: reduziu Deus à ordem do ser.

No entanto, Marion argumenta que isso é um mal-entendido da metafísica tomista. Segundo ele:
O esse de Deus em Tomás não é o mesmo “ser” que caracteriza os entes criados.
Deus não é apenas “um ente supremo”, mas a fonte radical do ser, sem ser aprisionado por ele.
Existe uma dissimetria essencial entre o esse de Deus e o esse das criaturas: o ser dos entes criados é recebido e contingente, enquanto o ser de Deus é absoluto e auto-suficiente.

Portanto, segundo Marion, Tomás não é um ontoteólogo no sentido estrito. Sua concepção de Deus não se encaixa na crítica heideggeriana porque:
1. Deus não é um ente entre outros: Ele é “além do ser” (mesmo que expresso como esse).
2. O ser de Deus é transcendente e inassimilável ao nosso conceito de ser.
3. O fundamento último não pode ser reduzido a um conceito filosófico—ele deve ser revelado.


3. O Dilema da Analogia do Ser

Outro ponto crucial da discussão é a analogia do ser (analogia entis) em Tomás, que tenta explicar a relação entre Deus e as criaturas. A analogia significa que:
O ser das criaturas tem um certo grau de semelhança com o ser de Deus.
No entanto, essa semelhança é sempre limitada, pois Deus é infinitamente superior.

Marion critica a analogia do ser, pois acredita que ela pode inadvertidamente manter Deus dentro do horizonte do ser. Para ele, essa relação ainda coloca Deus dentro de um esquema metafísico, onde Ele é pensado em termos de participação no ser.

No lugar da analogia do ser, Marion propõe uma abordagem fenomenológica e da revelação:
Deus não se dá a conhecer primariamente como “ser”, mas como “dom”, “amor”, “excesso”.
A relação com Deus deve ser entendida em termos de doação e revelação, não de ontologia.
O verdadeiro acesso a Deus ocorre na experiência do dom e na resposta do amor, e não por meio de conceitos filosóficos.


4. Deus “Sem Ser”: A Resposta a Tomás

A resposta final de Marion a Tomás é que:
1. A teologia de Tomás de Aquino não é totalmente ontoteológica, mas ainda usa categorias que poderiam levar a essa armadilha.
2. O “ser” (esse) de Deus em Tomás precisa ser repensado—não como um conceito metafísico, mas como um fenômeno revelacional.
3. A primazia de Deus não é do ser, mas do amor.

Marion conclui que a teologia deve abandonar a ontologia e se centrar na lógica do dom. Deus não é “definido” pelo ser, mas pelo amor que se revela sem conceito e sem limites.


5. Conclusão: Marion Contra a Ontologia Tomista?

O capítulo 8 é, portanto, uma reinterpretação ousada de Tomás de Aquino à luz da fenomenologia e da teologia pós-metafísica. Em resumo:
Tomás não pode ser reduzido à ontoteologia heideggeriana.
Mas sua ênfase no esse pode ser problematizada se pensarmos Deus como um “excesso de doação”.
Deus deve ser pensado sem ser, ou melhor, para além do ser, na economia da caridade.

Dessa forma, Marion propõe um novo horizonte para a teologia:
Uma teologia do dom em vez de uma teologia do ser.
Um Deus do amor, que se manifesta como pura doação.

Essa reinterpretação tem um impacto profundo nos debates contemporâneos entre filosofia e teologia, questionando a necessidade de manter Deus dentro das categorias do “ser” e abrindo caminho para uma nova teologia pós-metafísica.

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Avaliação crítica 

Marion quer fugir do discurso ontológico, mas julgo que isso seja impossível se se quer falar de Deus filosoficamente ou com um mínimo de objetividade, como faz o próprio Marion. Ao fim e ao cabo, sempre se usará o verbo “ser”, ainda que seja para dizer que Deus “é” transcendente e inefável ou “é” abundância e pura doação ou “é” amor. Não se foge de uma determinada ontologia a não ser fazendo (outra) ontologia. No caso de Deus, o importante é que a ontologia não o aprisione a nada de finito e seja a mais adequada ou a menos inadequada ao mistério de superabundância, bondade e doação de Deus. Filosoficamente, podemos dizer que Deus é o próprio Ser, o Ser puro, e isso quer dizer também, na visão de Tomás de Aquino, que Deus é a Bondade pura ou a Comunicação pura, já que o Ser é também Bem. 

Tomás de Aquino, como reconhece Marion, não enquadra Deus em nenhuma cadeia lógica nem em nenhum sentido  (humanamente) determinado de ser, pois o sintagma tomista que “define” Deus como Ipsum Esse Subsistens  não o coloca no nível dos entes, mas é índice de sua absoluta transcendência, superabundância e inefabilidade. Conhecemos a Deus como o grande desconhecido. Mas o conhecemos, isto é, tratamos da questão de forma “científica” ou “filosófica”, ainda que o conhecimento se dê no nível do absolutamente transcendente como conhecimento do inefável. O conhecimento de Deus é real (daí a importância da filosofia), mesmo que se dê num outro nível em relação ao conhecimento dos entes (criados). 




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